Apresentados

Henrique Figueira da Silva

O maior banqueiro madeirense do início do séc. XX




Henrique Figueira da Silva nasce em 1868, em Demerara, na Guiana, na América do Sul. Viria a falecer em Lisboa, a 5 de abril de 1946.
Vem para a Madeira em 1869, depois de sair daquele país a 15 de abril de 1869. Chega ao Funchal a 21 de maio seguinte, no barco inglês 'E. W Cohoon'. Viaja na companhia do pai, madeirense, Luiz Figueira da Silva, da mãe, Maria, e dos irmãos Luiz, Guilhermina e Matilde.
Na Madeira vem a nascer o seu irmão mais novo, João Damasceno.

Pouco ou nada se sabe da infância e juventude deste homem com um 1,72 m de altura, cabelos grisalhos, sobrancelhas castanhas, olhos azuis e nariz regular.
Só começamos a encontrar informação acerca Figueira da Silva em 1898. Nesse ano, funda uma casa bancária na Rua dos Murças. Começa como cambista e evolui para banqueiro reconhecido na praça madeirense. 
A sua instituição torna-se a principal casa de crédito do Funchal. 
A casa bancária passa a denominar-se, popularmente, Banco Henrique Figueira. 
A sede é na Avenida Arriaga, onde, depois da liquidação da casa bancária, se instala a filial da Caixa Geral de Depósitos.

Henrique Figueira da Silva casa, aos 21 anos, com Maria Benvinda Pereira, numa cerimónia que decorre na Igreja de São Pedro, a 28 de janeiro de 1889.
Do matrimónio nascem três filhas, Maria Albertina, Maria Judite e Maria Cecília.

Em setembro de 1921 e outubro de 1924, Henrique Figueira da Silva, requer passaportes para visitar vários países da Europa. 
Nos dois anos anteriores, já tinha viajado para as ilhas Canárias.

A 28 de junho de 1926, a casa onde reside é sacudida por uma violenta explosão.
Depois de apuradas investigações, apura-se que estão diretamente envolvidos três elementos da Casa Sindical, tidos por anarquistas.
Existem mais nove implicados em atividades estranhas ao sindicalismo, que são presos e seguem para Lisboa.

Em 1930, tem mais de 10 mil clientes, com os depósitos a atingiam cerca de 75,9 milhões de escudos em 31 de dezembro de 1929.
Para termos uma ideia de grandeza, este montante supera o dobro do conjunto dos restantes bancos madeirenses.
Mas talvez não seja suficiente a comparação anterior para se inteirar o valor em questão.
A conversão nominal direta, aplicando apenas a taxa de câmbio oficial do euro, 75,9 milhões de escudos equivalem a 378.587,60 euros, ou seja cerca de 378,6 mil euros. Parece irrisório, mas atente-se, traduzindo no poder de compra real, ajustado à inflação, devido a quase um século de inflação e desvalorização da moeda, 1 escudo em 1929 compra o equivalente ao que cerca de 1,40 a 1,50 euros compram hoje.
Por isso, ter 75,9 milhões de escudos em 31 de dezembro de 1929 dá ao seu detentor a capacidade económica e o poder de compra equivalentes a ter entre 100 e 115 milhões de euros no presente.

Além da instituição que cria, Figueira da Silva também está ligado ao 'Banco Português do Continente e Ilhas', sendo seu representante na Madeira, reforçando, assim, a sua posição no sistema financeiro regional.

No início do séc. XX é igualmente cônsul do México no Funchal.

Em poucos anos, Figueira da Silva aumenta o património através de vários investimentos.

Para além da banca, acumula um abrangente património imobiliário e industrial. 
Em 1915, adquire a 'Fábrica de São Filipe', um complexo que opera na moagem de trigo e milho, refinação de açúcar e destilação de álcool, com um papel significativo na economia madeirense até ao início da década de 30.
Em 1930, as suas propriedades estão avaliadas em cerca de 20 milhões de escudos, onde se incluem prédios na atual Avenida Arriaga, a 'Fábrica C. V. Madeira' e a referida 'Fábrica de São Filipe'.

Contudo, a partir de 1929, a navegação de Figueira da Silva na crista da onda sofre um revés com a casa bancária a enfrentar graves dificuldades de liquidez, agravadas por críticas públicas à sua gestão.  Circulam na imprensa madeirense rumores de que a casa bancária tem problemas de liquidez, os quais se estendem ao ano seguinte e minam a confiança dos depositantes numa instituição que concentra uma parte grande das poupanças madeirenses.
Neste quadro, é importante realçar que a quebra da Bolsa de Nova Iorque, naquele ano de 1929, afeta diretamente a Madeira. Isto porque os Estados Unidos da América são um mercado essencial para as exportações regionais, concretamente o vinho, o bordado e o vime. 
Ora, com a queda das exportações e dos preços os comerciantes e industriais são atingidos, reduzindo a capacidade de pagamento dos clientes do banco e a entrada de divisas na ilha.
Na altura, o Governo de Salazar recusa apoio à instituição, enquanto outros bancos, incluindo alguns ingleses, receberam auxílio de Lisboa.

Seja como for, a campanha crítica na imprensa e o medo generalizado transformam-se numa corrida aos levantamentos. Muitos clientes e empresas tentam retirar simultaneamente o seu dinheiro, situação que nenhum banco regional consegue suportar, onde se inclui a instituição de Figueira da Silva.
Perante este cenário de desconfiança, a 20 de novembro de 1930, o bando de Figueira da Silva suspende pagamentos e encerra.
Esta situação cai que nem uma bomba na sociedade madeirense, tendo um  forte impacto económico e social.
A falência da da 'Casa Bancária Henrique Figueira da Silva' ocorre meses antes da Revolta da Madeira de 1931, que começa em abril. 

O resultado é uma verdadeira crise sistémica, já que, das 13 instituições bancárias em funcionamento na década de 1920, apenas cinco sobrevivem ao período recessivo do início da década de 1930. 
A crise bancária agrava uma conjuntura já difícil, marcada pela queda dos preços da cana-de-açúcar e do vinho e pelo encerramento de fábricas. 
A suspensão de pagamentos de dois dos principais bancos do Funchal e o fecho de casas comerciais e pequenas indústrias criam um ciclo de contração económica difícil de reverter.

Henrique Figueira da Silva é detido pela polícia de investigação criminal no âmbito da liquidação da instituição, tal como o irmão João Damasceno, o filho João Anselmo e um cliente da banca. 
O património é vendido para pagamento aos credores.
As indústrias diretamente ligadas a Henrique Figueira da Silva não desaparecem todas de imediato, mas são desmembradas, vendidas em hasta pública e, em grande parte, passam para mãos de grupos britânicos já dominantes na economia madeirense, sobretudo 'Hinton' e 'Blandy'.
Neste panorama, temos a 'Fábrica de São Filipe', que é o principal ativo industrial do grupo. Trata-se de um complexo com moagens de trigo e milho, refinação de açúcar e destilação de álcool, avaliado em 6 milhões de escudos em 1930.

Com a crise de liquidez e a suspensão de pagamentos da casa bancária, a fábrica perde apoio financeiro e fica envolvida na liquidação do património. É alienada em hasta pública em 1935, sendo o imóvel adjudicado a 'William Hinton & Sons' e a maquinaria à 'Companhia Insular de Moinhos'.

Mais tarde, as instalações passam para a 'Socarma – Comércio Alimentar, S.A.', que aí instala sede e armazém. Este edifício seria destruído por um grande incêndio em 22 de outubro de 1974, com as ruínas a serem demolidas em 1989, no âmbito da reorganização urbana da frente marítima do Funchal.
Tinha igualmente a 'Fábrica C. V. Madeira', a 'Fábrica da Serra d’Água', na Calheta, e a 'Fábrica Lealdade', no Funchal

O destino das indústrias do grupo evidencia a saída de um grande capitalista madeirense e a concentração de ativos produtivos e financeiros em casas comerciais britânicas já estabelecidas.

Em 1930, as propriedades de Henrique Figueira da Silva incluem 30 grupos de bens: prédios urbanos no Funchal, fábricas, armazéns, depósitos de açúcar, terrenos e quintas na Calheta, São Martinho, Monte, Santo da Serra e Terreiro da Luta.
O maior bloco é o conjunto de prédios na Rua da Imperatriz D. Amélia, incluindo a Quinta da Penha, que corresponde à atual Quinta da Penha de França, na Rua Imperatriz D. Amélia, hoje o Hotel Quinta da Penha de França. 
Para além da sede na Avenida Arriaga e da agência de navios na Rua dos Murças, o espólio inclui imóveis nas ruas dos Tanoeiros, Vieira, Princesa D. Amélia, Veiga Pestana, São Pedro, Sabão, Maravilhas e C. Heredea, além de imóveis junto à Avenida de António José de Almeida.
O banqueiro possui também terrenos e quintas dispersos pela ilha.

O balanço de 31 de dezembro de 1931 aponta para um ativo de 87 milhões de escudos contra um passivo de 77,9 milhões de escudos, uma diferença superior a 9,1 milhões de escudos. 
Seja como for, o processo de liquidação prolonga-se até 1936 e a alienação dos bens prossegue para satisfazer os credores.
Atente-se que os bens não são confiscados nem transferidos gratuitamente, porque são vendidos no âmbito de uma liquidação judicial controversa. 

Quando Henrique Figueira da Silva é preso, o seu estado de saúde não lhe permite enfrentar tamanha adversidade e tem de ser internado no Hospital de São José, em Lisboa.
Após deixar o hospital, vai para casa da filha mais nova, Maria Cecília, na companhia da mulher. Aluga, depois uma casa no Campo Pequeno e, mais tarde, vai viver para um primeiro andar da Rua da Alegria.
Vem a falecer na capital portuguesa, a 5 de abril de 1946.

A concluir, podemos realçar que Henrique Figueira da Silva fica para a história como um banqueiro e empresário madeirense de grande influência na primeira metade do século XX, fundador da 'Casa Bancária Henrique Figueira da Silva', no Funchal, e proprietário de importantes unidades industriais na ilha.










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