Apresentados

Elizabeth Leeson

A navegadora solitária


Elizabeth Leeson nasce em Inglaterra, no ano de 1919. Viria a falecer na Madeira, com 92 anos, a 9 de outubro de 2011. 
Entre 1949 e 1961 é professora missionária em África, em Tanganica, atual Tanzânia, na 'St Andrew’s School de Minaki', em cujo ambiente se sente desajustada.
Um trabalho publicado na 'Tanzanian Affairs', refere que Elizabeth Leeson descreve os colegas missionários como estreitos de espírito e que as suas atividades são pouco convencionais. 
Por isso, acaba por deixar a missão e passa a ensinar em escolas governamentais.

Segue-se o outro lado do Atlântico, nas Bermudas, onde é professora durante três anos. 
Por lá ganha interesse pela biologia marinha, sobretudo pelo estudo das águas-vivas e da caravela-portuguesa, cujos mecanismos de reprodução são então pouco conhecidos.

Regressa ao Reino Unido.

Em 1967, com 47 anos, parte de Brixham, no sudoeste de Inglaterra, a bordo do 'Wee Monarch'. É um pequeno veleiro de 6,6 metros, construído em fibra de vidro, avaliado em cerca de £2.200. 
Tem pouca dimensão para uma travessia oceânica, especialmente para uma navegadora a solo. Mas, aventura-se.
Antes da partida recebe instruções finais do comandante C. Lund, que atua como seu instrutor de vela.
O objetivo da viagem é rumar às Bermudas, que bem conhece, num percurso com cerca de 7.400 quilómetros. A ligação prevê a escala na Madeira para reabastecimento, cuja etapa prevê concretizar em 14 dias. 
O projeto é apoiado pelo jornal britânico 'The People', para o qual Elizabeth Leeson prepara reportagens. Pretende aproveitar a travessia para observar organismos marinhos e estudar a caravela-portuguesa.
Contudo, a viagem não corre como planeado. Logo que deixa terra firme, enfrenta temporais no Canal da Mancha, que serão replicados pelo caminho, provocando sucessivas avarias entre Inglaterra e a costa da Península Ibérica. 

Ultrapassadas as adversidades, chega ao Funchal, em setembro de 1967, com o iate maltratado, depois de repetidas falhas do barco, que o deixam em más condições. 
Seja como for, Elizabeth Leeson é recebida na capital madeirense com um misto de curiosidade, simpatia e um certo espanto, pelo que conseguiu fazer, despertando a atenção do meio náutico e da imprensa local.
Não é só recebida como uma navegadora que completa uma proeza, mas como uma mulher corajosa que tenta atravessar o Atlântico sozinha e precisa de apoio. 
O Clube Naval do Funchal (CNF) e a comunidade náutica ajudam a recuperar o veleiro.
O CNF torna-se mesmo um dos principais pontos de contacto de Elizabeth Leeson na Madeira, onde conhece velejadores, marinheiros e entusiastas da vela que a recebem como colega e não apenas como visitante estrangeira.
Mas, apesar da tentativa para recuperar o 'Wee Monarch', este nunca fica em condições de prosseguir.
Por isso mesmo, perante essa adversidade, manda construir um novo veleiro, o 'Mont Carmel', no Arsenal de São Tiago, no Funchal. 
O novo barco é concebido para a travessia atlântica. Tem cerca de 8,5 metros e dois mastros. É lançado ao mar em agosto de 1970.
Já com a nova construção, faz tentativas para retomar a travessia. Mas não resultam. Elizabeth Leeson acaba por permanecer no Funchal, onde continua os estudos de biologia marinha e se dedica ao ensino do inglês e de náutica.

Navega com o 'Wee Monarch', mas apenas em águas madeirenses, integrando-se no meio náutico. 
Em 1972, participa na Regata das Desertas ao comando do seu veleiro madeirense.
A partir dessa prova, passa a ser conhecida no meio náutico local como a “velejadora das Desertas”. Popularmente, acabaria por ser conhecida por "mulher-homem", por parecer realmente um homem, na forma como andava e pela própria fisionomia, com cabelo curto, à homem.
A sua presença na Madeira é invulgar, já que poucas mulheres navegam sozinhas no Atlântico e ainda menos chegam à ilha num barco tão pequeno. Isso faz com que as pessoas tenham respeito por si, e também uma forte curiosidade. Veem nela uma figura exótica e corajosa, mas também uma mulher independente e culta, professora e investigadora.
A imprensa madeirense acompanha a sua história e a sua ligação ao jornal britânico 'The People'. 
Com o tempo, deixa de ser vista como uma navegadora de passagem e integra-se na vida social, sendo uma presença habitual junto da comunidade anglicana e frequentando a Igreja Inglesa.

Em novembro de 2005, Elizabeth Leeson publica a autobiografia 'Alone on a Crooked Mile', editada por Bill Weston, com 250 páginas. 
É uma memória de vida que percorre a infância e formação britânicas, os anos como missionária e professora em Tanganica, a experiência nos Bermudas, o interesse pela biologia marinha e, finalmente, a vela solitária e a chegada à Madeira.
Em português, o título quer dizer, literalmente, “Sozinha numa milha torta”. Resume a vida feita de mudanças de rumo, projetos interrompidos e recomeços, em vez de um percurso linear.
Apresenta-se como alguém que vive negócios inacabados e mudanças de curso, sendo mesmo essa a chave interpretativa do livro.
Além disso, a obra é particularmente valorizada pelos seus testemunhos acerca do período que antecede a independência da Tanganica, em 1961. Para quem vive aquele tempo, as suas reflexões são apresentadas como um documento interessante sobre a sociedade colonial e as tensões que precedem o Uhuru.
Por seu turno, o núcleo náutico do livro conta, evidentemente, a tentativa de atravessar o Atlântico sozinha, de Inglaterra para os Bermudas, a bordo do 'Wee Monarch'.
A Madeira aparece no livro como o lugar onde a vida de Elizabeth Leeson se reorganiza. Não apresenta a ilha apenas como refúgio, mas como o espaço onde a autora encontra estabilidade, comunidade e a possibilidade de retomar os seus interesses científicos. É aí que a narrativa pessoal se cruza com a história da Madeira como escala de velejadores oceânicos.

Elizabeth Leeson não acaba por não realizar a travessia que planeia, mas a sua história é relevante por ser uma das primeiras mulheres a tentar atravessar sozinha o Atlântico; por ser a primeira (ou segunda) navegadora solitária a chegar à Madeira; e pelo facto da ilha torna-se o lugar onde reconstrói a vida, entre a investigação, o ensino e a vela.
A sua vinda para o Funchal ajuda também a consolidar a imagem da Madeira como escala estratégica para velejadores oceânicos, sobretudo para quem navega entre a Europa e a América.
Como reconhecimento do seu papel, em 2009, o Clube Naval do Funchal volta a homenageá-la, reconhecendo-a como uma navegadora solitária marcantes que passa pela ilha.

Depois de ter residido os seus últimos anos em um lar em Machico, Elizabeth Leeson ainda é vista, nas semanas que antecedem a sua morte, a passear pelas ruas do Funchal em convívio com os amigos mais próximos.
Viria a falecer a 9 de outubro de 2011.
O meio náutico madeirense recebe a notícia do falecimento de Elizabeth Leeson com profunda consternação.
As cerimónias fúnebres decorrem no dia 14 na Igreja Inglesa. 
E, respeitando a sua vontade, o corpo é cremada e as cinzas são lançadas ao mar, nas águas da Madeira. 
Inicialmente, o desejo de Elizabeth Leeson é que o próprio corpo seja entregue ao oceano, mas acaba por ser descartada devido às restrições da legislação portuguesa.

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