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Apresentados

William Edward Clode

O médico amigo dos desprotegidos e das artes William Edward Clode nasce na Quinta Gertrudes, em Santa Luzia, no Funchal, a 13 de setembro de 1900. Viria a falecer em casa, na Quinta Crawford, na capital madeirense, a 3 de outubro de 1980. É filho de Archibald George Clode e de Maria Francelina Crawford do Nascimento. Faz os estudos liceais na Madeira e, a 23 de janeiro de 1919, vai para o Continente estudar Medicina na Universidade de Coimbra. Curiosamente, por ter nacionalidade inglesa e formação anglicana, necessita de um visto oficial para poder viajar para Lisboa.  Em Coimbra participa no Orfeão Académico e na Tuna Académica, na qual tocava viola.  Associa-se ao 'Centro Académico de Democracia Cristã', fundado em 1901, em Coimbra, para enfrentar o agravamento da questão religiosa levantada pelo Governo de Hintze Ribeiro.  Funda, a 10 de maio de 1923, o 'Lactário de Nossa Senhora', integrado na 'Conferência de São Vicente de Paulo' da 'Faculdade de Medic...

José Martins Júnior

O padre artista que revoluciona Machico



José Martins Júnior nasce em Machico, na ilha da Madeira, a 16 de novembro de 1938, cidade onde viria a falecer, 86 anos de idade, a12 de junho de 2025.
Conhecido popularmente como padre Martins Júnior, é uma figura marcante e controversa da história contemporânea da Madeira.
Evidencia-se pelo papel social, artístico político e religioso na freguesia da Ribeira Seca, em Machico.
Cresce no seio de uma família humilde em Machico, experiência que molda a sua sensibilidade para os problemas da pobreza e da exclusão social na Madeira rural. 

Frequenta o Seminário Diocesano do Funchal, onde conclui a formação Teológica e Filosófica.
É ordenado padre na década de 1960.
Em 1969, é nomeado pároco da Igreja de Nossa Senhora do Amparo, na Ribeira Seca, por decisão do então Bispo do Funchal, D. João António da Silva Saraiva. 
Desenvolve um forte trabalho de ação social e comunitária junto da população local. Impulsiona a criação de creches, centros comunitários e projetos de alfabetização e apoio à terceira idade.
Destaca-se desde cedo pela capacidade de liderança e por defender uma Igreja mais próxima do povo e interventiva nos direitos fundamentais. 

Devido ao seu alinhamento político de esquerda e as divergências doutrinárias e disciplinares com o então bispo do Funchal, D. Francisco Santana, a Diocese determina, em 1977, a sua suspensão a divinis do exercício do ministério sacerdotal.
Não obstante, a população da freguesia recusa aceitar a decisão do bispo e impede a entrada de novos sacerdotes na paróquia. O padre Martins continua a celebrar missas e sacramentos durante décadas, com o apoio incondicional dos paroquianos, criando uma situação sem precedentes de rutura prática com a diocese oficial.

Paralelamente à sua ação na paróquia, tem uma participação política ativa.
Martins Júnior é eleito deputado à Assembleia Legislativa da Madeira ao longo de 7 mandatos, cobrindo 4 mandatos pela UDP (União Democrática Popular), partido que estaria na génese do Bloco de Esquerda.
É parlamentar por este partido entre a I e a IV Legislatura: 1976 – 1980 (I Legislatura); 1980 – 1984 (II Legislatura); 1984 – 1988 (III Legislatura) e 1988 – 1992 (IV Legislatura).

Segue-se a vida autárquica. 
Candidata-se e é eleito presidente da Câmara Municipal de Machico, entre 1989 e 1996, ao longo de dois mandatos consecutivos.
Nos primeiros quatro anos (1989 – 1993) é eleito nas eleições autárquicas de dezembro de 1989, na liderança do movimento independente UDP/MUP (Movimento Único do Povo).
É reeleito nas autárquicas de dezembro de 1993, encabeçando a lista da coligação PS/UDP.  

Renuncia ao mandato autárquico em 1996 para assumir o cargo de deputado no parlamento regional (VI Legislatura) pelo PS, partido pelo qual cumpre três mandatos, eleito pelo círculo eleitoral de Machico: 1996 – 2000 (VI Legislatura); 2000 – 2004 (VII Legislatura) e 2004 – 2007 (VIII Legislatura, tendo interrompido o mandato em 2007).
No parlamento madeirense afirma-se como uma voz crítica da governação regional da época. 
Notabiliza-se por acesos debates com a maioria parlamentar do PSD e com o Governo Regional liderado por Alberto João Jardim.

Após 42 anos de suspensão, o Bispo do Funchal, D. Nuno Brás, revoga a sanção, em julho de 2019, regularizando a situação canónica do sacerdote, reintegrando-o plenamente no clero da Diocese do Funchal.
A decisão põe fim ao mais longo litígio da história recente da Igreja madeirense, permitindo-lhe concelebrar a Eucaristia com a hierarquia diocesana antes de resignar por razões de idade, mantendo-se sempre uma figura incontornável da cultura e memória coletiva da ilha.
Retira-se formalmente das funções paroquiais ativas na Ribeira Seca após a reabilitação, mantendo o reconhecimento da comunidade pelo seu impacto cívico e social na Madeira.

Mas, atente-se que Martins Júnior não fica para a história apenas pela presença muito ativa na igreja e na política. Tem outros dotes como o de ser possuidor de uma voz bem articulada e afinada. 
O gosto pelo canto está na origem da alcunha carinhosa pela qual ficou conhecido — o Melro.
Por outro lado, alinhado com as diretrizes do Concílio Vaticano II, que incentivam a introdução das línguas vernáculas e das expressões culturais locais na liturgia, Martins Júnior revoluciona as celebrações na igreja da Ribeira Seca. Substituiu os cânticos tradicionais e austeros em latim por composições vivas, acompanhadas por instrumentos populares e cânticos de intervenção.
Na prática, usa a música para ensinar a catequese, incentivar a participação dos jovens e dar uma voz de esperança e dignidade às populações rurais.
Mas não fica por aqui. 
Compreende muito cedo a riqueza do folclore e das tradições orais de Machico e da Madeira. Por isso, dedica-se à recolha de cantares tradicionais, trovas populares e romances antigos que correm o risco de se perder.
É o principal impulsionador e fundador do grupo folclórico e cultural da freguesia, promovendo os bailes típicos, o vestuário tradicional e a utilização de instrumentos autóctones, como o brinquinho, o machete e a rajão.
No teatro, como forma de dinamizar a comunidade e promover a reflexão social, promove a encenação de peças de teatro amador na Ribeira Seca. Abordam com humor e crítica temas do quotidiano, a emigração, as dificuldades dos trabalhadores do campo e a justiça social.
Com toda a sua dinâmica, transforma o centro comunitário da paróquia num pólo vibrante onde a música, a literatura e as artes dramáticas servem de ferramenta contra o analfabetismo e o isolamento cultural.
Além disso, a sua veia artística reflete-se igualmente na escrita. As suas homilias, intervenções públicas e artigos de opinião destacam-se pela riqueza vocabular, pelo recurso à poesia e por uma oratória emotiva e cativante que marca quem o ouve.

Em suma, o padre Martins Júnior dedica mais de seis décadas da sua vida ao serviço da comunidade de Machico, tornando-se um símbolo insular de resistência, compromisso comunitário e pluralismo de ideias.

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