Luís Sousa


 O empresário que aposta nas nuvens


(nova adição - 2017)


Luís Sousa nasceu no Arco da Calheta, na ilha da Madeira, a 25 de outubro de 1972, um ano marcado por não ter sido atribuído o Prémio Nobel da Paz.
Estuda como qualquer outra criança e jovem e não sonha vir a ser empresário. O click dar-se-ia mais tarde. Hoje é o CEO da ACIN iCloud Solutions.

por Paulo Camacho

Desde cedo nutre um gosto muito grande pela informática. Com cerca de 16 anos, cruza-se no seu caminho a DTIM - Associação Regional para o Desenvolvimento das Tecnologias de Informação na Madeira, então com uma pujança relevante, com a liderança tecnológica de tudo o que se fazia nesta área na Região.
A par dos estudos, passa o seu tempo na associação localizada na Calçada de Santa Clara. Quer saber sempre mais. O gosto adensa-se e as competências nesta área aumentam.
A certa altura, a DTIM convida Luís Sousa para dar formação. Aceita o desafio.
O tempo corre e a Casa do Povo da Ribeira Brava quer proporcionar ações de formação. A associação pede a Luís Sousa para ir para lá, que concorda. Vai e foi ficando.

Projeto próprio

Um dia surge a ideia de criar um projeto próprio. Admite que já que passa tanto tempo por ali, isso seria uma ótima ideia. Das ideias à concretização foi um passo. Cria a Academia de Informática, uma empresa com duas vertentes. Uma vertente na área da formação, em colaboração com a DTIM, e outra na área da comercialização de produtos informáticos, entre os quais computadores e impressoras.
Nessa altura, estão nas instalações da Casa do Povo. Mas fica por lá pouco tempo. Muda para outras instalações onde hoje está o hotel Vale Mar.
Entretanto, decide cursar Direito por entender que seria mais importante pelas valias que proporciona a quem o estuda e para quem decide enveredar pelo empreendedorismo empresarial. Inicia o curso em 2005 e termina-o em 2010.
Inicialmente começa o projeto empresarial sozinho. Depois faz um convite para ter um sócio, que ainda hoje se mantém. E começam a entrar colaboradores. Hoje são cerca de 120 pessoas a trabalhar no grupo.

Bug do ano 2000
O “bug do ano 2000” traz ameaças para os computadores. Mas para Luís Sousa é uma grande oportunidade que agarra.
A dado momento, a empresa começa a dar apoio informático à Câmara Municipal da Ribeira Brava, depois de conseguir uma parceria com uma empresa do Porto. Constitui um grande passo para o crescimento. Seguem-se trabalhos com as edilidades de São Vicente, Porto Moniz, Machico e por aí adiante.
Consegue voltar a informatizar todas as câmaras municipais da Região e prestar o apoio que precisavam nas áreas do hardware e do software. Tudo isto implica a contratação de mais técnicos.
Seguem-se as juntas de freguesia.

Mudar de instalações

A dado momento, Luís Sousa decide mudar para as atuais instalações, que ficam não muito longe das anteriores. Ainda mudam como Academia de Informática.
Além disso, pelo facto de apenas representar a empresa nortenha sente que isso não dá perspetivas de futuro.
Neste processo vai abandonando a componente de comercialização de computadores por entender que não é a vocação da empresa. Fica cada vez mais na área do software.

Parcómetro

Um dia, a Câmara de Machico, com quem trabalhava, conversa com Luís Sousa para ver se encontra solução para o único parcómetro que existia no concelho e que estava sempre avariado. O empresário vê aí uma oportunidade de negócio e decide criar outra empresa para o efeito. Procura um parceiro conhecedor da área e cria a Datarede para os estacionamentos. Além de resolver o problema de Machico vai ganhando concessões atrás de concessões, a maioria fora da Madeira e do país.
Mas no início da atividade desta nova empresa depara-se com um problema que se prende com a fiscalização. Como é informático deduz que o melhor será criar um sistema informático para o efeito.
Vê uma solução nacional e chega tê-la em Ponta Delgada, nos Açores. Mas depressa se apercebe que não serve. Contrata um engenheiro com a missão de criar um software para o estacionamento. Surge o departamento de desenvolvimento da Academia de Informática e nasce o primeiro produto que é o iParque.
Diz que o software ficou tão bom que pensa que se o conseguiu fazer também pode fazer mais coisas.

A ideia

A partir dessa altura decide enveredar por uma nova estratégia. Reconhece que está na Ribeira Brava e, por isso, não pode produzir software para distribuir por potenciais clientes porque entende que não vai funcionar.
Por essa altura, a utilização da cloud para basear informação ainda é incipiente na internet. Mas o iParque foi criado para estar precisamente na cloud na qual Luís Sousa vislumbra o futuro. Vê aí um local onde se pode ir sem necessitar de lá estar para instalar seja o que for. Ainda mais que no seu caso, os fiscais estão em Ponta Delgada (Açores), em Machico ou em Las Palmas (Canárias), e o programa tem de estar acessível nos PDA, ligado a um servidor para manter tudo online.
Começa a pensar em áreas, como diz,  “onde exista dor”, onde, “de uma forma ou de outra os nossos potenciais clientes sintam alguma dor. E nós, com o nosso produto, vamos tirá-la”, argumenta.

Mestrado

Neste caminhar, o empresário faz um mestrado em Direito Administrativo e Contratação Pública na Universidade Católica.
Numa das primeiras aulas fica a saber que a contratação pública ia passar a ser feita de forma eletrónica. Uma empresa antecipa-se ao mercado nacional e dispõe de uma plataforma para o efeito.
Mas isso não é entrave. Fala com os professores do mestrado, conhecedores da matéria, assim como com os colegas de mestrado no sentido de o apoiarem a fazer um programa próprio na Academia de Informática. O que acontece.
Fala com o engenheiro da empresa e começa a desenvolver a AcinGov, uma plataforma eletrónica de compras públicas que admite ser uma das melhores do país. Chega a correr o programa em algumas aulas no sentido de ir apurando.
Em 2008, por uma questão meramente comercial, decide alterar o nome de Academia de Informática para ACIN.

iMed

Com tudo a andar, apercebe-se que ia ser obrigatório os médicos prescreverem de forma eletrónica. Volta a falar com o engenheiro e a equipa para criar uma nova plataforma para dar a resposta adequada. Existiam então 44 programas na área da saúde. E, por isso, questiona-se como pode uma empresa na Ribeira Brava, com um produto novo, conseguir entrar no mercado.
Fala com pessoas amigas que trabalham no Ministério da Saúde e questiona acerca do melhor caminho. A resposta é que deve fazer uma plataforma simples. E assim acontece. Sempre baseado na cloud, surge o iMed que começa a ser implantado de forma criativa para penetrar do mercado e que continua a crescer para os lados.
Há outra “dor” com a faturação eletrónica. Novamente na cloud, surge o sotware de gestão iGest.
Vem a seguir um novo software que deriva da plataforma de compras: o Compras do Estado.
Segue-se o iDok para a gestão documental.
Depois o sistema financeiro PayPay, uma plataforma alternativa de pagamento. Permite aos clientes gerarem referências de pagamento ou simplesmente pagar com o cartão de crédito.

Gestão do dia-a-dia

O dia-a-dia de Luís Sousa não é muito ocupado. Admite que o grande segredo é descentralizar e confiar nas pessoas que interiorizaram o espírito da empresa. É dar funções para cumprirem e dispor de sistemas internos que controlem a vida da empresa e as áreas críticas. Para isso, desenvolve um software interno próprio.
Daí afirmar ter muito tempo livre para pensar em novos projetos e afirmar que o dia-a-dia da empresa não o preocupa.
Admite que foi fácil ser empreendedor. Diz que se tivesse de fazer uma retrospetiva, as dificuldades foram 0,5% e as facilidades 99,5%. “Tenho tempo para a agricultura, para os animais, para as minhas corridas, para os meus passeios… O que me limita mais um pouco são as viagens. Ainda viajo muito, embora já tenha conseguido nessa área também descentralizar muito”, diz.
O empresário considera ter sido importante pensar para além dos limites da ilha. Diz mesmo que isso foi fundamental.
Por outro lado, quando em matéria de inovação, afirma ser preciso saber estar na frente sem nunca perder de vista quem vem atrás. “É preciso estar sempre a correr e a trabalhar” diz, acrescentando que para aprimorar o desempenho é necessário eliminar constantemente o que está a mais, “riscando cada dia uma regra estúpida, porque as há. É preciso questionar”.
Luís Sousa admite que gostaria de ter mais concorrência na Madeira, porque fora já a tem. Se acontecer acentua que geraria mais riqueza na ilha. Daí dizer que apoia muito o projeto do Governo Regional denominado “Brava Valley”, precisamente no concelho da Ribeira Brava, que admite valorizar a ACIN e depois acentua que “será uma forma de se apostar em mais uma área na Região.
Além do turismo, do Centro Internacional de Negócios da Madeira, e da agricultura que será mais de gourmet e de subsistência, considera que também se deve começar a pensar nas questões tecnológicas. Se daqui a 10 anos a Madeira tiver duas ou três empresas como a nossa, a aposta foi ganha”.
Hoje a empresa conta com cerca de 62 mil clientes na base de dados e está na nova sede, um edifício vanguardista.
A nova sede fica a poucos metros da anterior, onde está agora uma sucursal da Startup Madeira.

O novo edifício está dimensionado para 200 pessoas.


Paulo Camacho

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